Colesterol: O Grande Mito da Ciência

Por muitos anos o colesterol alto se tornou o grande parâmetro para risco cardiovascular. Médicos e outros profissionais prescrevem até os dias de hoje medicamentos para diminuir as taxas de colesterol sanguíneo afirmando ser uma estratégia para proteger a saúde cardíaca.

Hoje temos uma gama de medicamentos que não só diminuem essas taxas, como também diminuem a pressão arterial e a glicose sanguínea. A indústria  farmacêutica está cada vez mais forte e lucrativa.

Mas, se pesquisarmos um pouco sobre a ciência e o que ocorreu com ela em meados dos anos 70, vemos um grande marco na história das orientações nutricionais e na prescrição de medicamentos por parte de profissionais devido a grandes órgãos de saúde.

Neste artigo, vamos entender o que aconteceu para que o colesterol e as gorduras saturadas se tornassem verdadeiros venenos para saúde da população e quais foram as consequências disso.

Gorduras Saturadas e Colesterol

Antes, é importante estabelecermos o que é a gordura saturada. Já é de conhecimento que gorduras saturadas são gorduras que ocorrem de forma natural em alimentos principalmente de origem animal. Alguns alimentos de origem vegetal apresentam gordura saturada, como o coco por exemplo.

Quimicamente falando, a gordura saturada não possui ligação dupla ou tripla entre átomos de carbono vizinhos em uma cadeia de ácido graxo. A cadeia é completamente saturada com átomos de hidrogênio.

Ácidos graxos representam a menor parte dos lipídios (gorduras). Em um próximo artigo falaremos mais detalhadamente sobre os lipídios e cada tipo.

A estrutura química de um ácido graxo saturada está representada na imagem abaixo.

IMAGEM ESTRUTURA QUÍMICA DE UM ÁCIDO GRAXO SATURADO

Seu estado físico natural é sólido, quando não submetida a altas temperaturas. Ao ser submetida ao calor, as gorduras saturadas não perdem suas propriedades, diferente das gorduras insaturadas.

O consumo de gordura saturada é apontado como principal causa de colesterol sanguíneo elevado e consequentemente, doenças cardíacas.

Já o colesterol trata-se de um álcool policíclico de cadeia longa. Ele é encontrado nas membranas das células e é transportado no plasma sanguíneo de todos os animais. Ele é essencial para as membranas celulares de mamíferos.

Tamanha é sua importância que a maior parte de colesterol presente no corpo é sintetizada pelo próprio organismo.

Neste artigo veremos até que ponto esta informação é equivocada e porque isto aconteceu.

O Grande Mito: Como Começou

No século 19, já era de conhecimento científico que placas de ateroma continham colesterol em sua composição. Partindo deste princípio, o patologista russo chamado Nikolaj Anitschkow conduziu um experimento em coelhos, alimentando-os com colesterol puro diluído em azeite de oliva. Ele observou que os coelhos apresentaram depósitos de colesterol nas artérias, bem como em tendões e outros tecidos conjutivos.

Porém, algo essencial a ser levado em consideração é o fato de que coelhos são herbívoros. Ou seja, estes animais não estão metabolicamente adaptados a consumir colesterol ou qualquer outro nutriente de origem animal. Por isso, houve acúmulo em diversos tecidos, diferente de humanos.

Como falamos em um artigo anterior, estudos conduzidos em animais não podem levantar afirmações em humanos. Neste experimento apenas pôde ser observado que coelhos não podem comer carne. Mas infelizmente, na época, este estudo ajudou a fomentar a hipótese de que colesterol elevado no sangue era causa de seu depósito nas paredes das artérias.

Ancel Keys foi um bioquímico que disparou a aversão a gorduras saturadas. Mas primeiro, ele fez cair por terra o estudo conduzido em coelhos.

Keys acreditava que o colesterol sanguíneo elevado era causa de aterosclerose, porém realizou um estudo com voluntários que aceitaram consumir quantidades variadas de colesterol na dieta. Ele observou que o colesterol consumido na dieta não tinha nenhuma relação com o colesterol sanguíneo.

Em um conferência na Itália, em 1951, Keys conheceu um cientista de Nápoles que afirmou que doença cardíaca era muito pouco frequente em sua cidade. Keys então se interessou por esta afirmação e visitou Nápoles, confirmando que realmente a população daquela cidade não sofria destas enfermidades.

Observou também que o colesterol da população pobre era menor do que o dos ricos e que estes últimos comiam mais carnes e mais gorduras. Com base apenas nisso, Keys já se convenceu de que o consumo de gordura na dieta é que estava correlacionado com as altas taxas de colesterol sanguíneo.

Ele não levou em consideração outros fatores que diferenciavam estes dois grupos sociais como nível de atividade física, por exemplo. Ele já estava convencido de sua teoria, ele apenas queria encontrar uma maneira de confirmar isto.

Como vimos no artigo anterior, o primeiro passo para colocar me prática a medicina baseada em evidências é ter uma pergunta. Keys já começou com uma afirmação, o oposto do que propõe a metodologia científica.

Para confirmar sua teoria de que o consumo de gordura na dieta elevava o colesterol e consequentemente isto causaria doença cardíaca, o bioquímico conduziu um estudo epidemiológico em 7 países. Ainda mencionando o artigo anterior sobre evidências científicas, vimos que estudos como este que avaliam a população demograficamente, não possuem peso e nem relevância científica para afirmar teorias.

Este estudo demonstrou que os 7 países com maior consumo de gordura apresentavam mais doença cardíaca.

Outros dois cientistas em 1957 fizeram críticas bastante severas a respeito da metodologia do estudo de Keys, mas caíram por terra.

Estes cientistas, Jacob Yerushalmy and Herman Hilleboe, afirmaram que Keys escolheu os 6 países de forma tendenciosa, embora tivesse dado de 22 países.

Ao observar e comparar os outros 22 países, o gráfico mostraria algo bem diferente: o consumo de gordura na Alemanha, Holanda, Dinamarca e Noruega era o mesmo que em países como EUA e Canadá no entanto, nestes dois últimos a mortalidade era muito maior.

E houveram ainda mais erros neste estudo: o consumo de gordura foi calculado pela quantidade de gordura disponível no país dividido pelo número de habitantes, não diferenciando a gordura para uso industrial e para consumo. Já as doenças, eram avaliadas através de atestados de óbito.

Ainda no ano de 57, a American Heart Association (AHA) fez fortes críticas também ao estudo mal conduzido de Keys.

Podemos perceber que a equivocada teoria do colesterol nasceu de um estudo tendencioso, mal conduzido e ainda de baixo nível de evidência científica.

Por interesses políticos e não científicos esta teoria, mesmo cheia de questionamentos, foi intensificada.

Quatro anos depois, Ancel Keys se tornou membro do comitê da AHA e conseguiu fazer com que as diretrizes alterassem de acordo com sua teoria, mesmo sem novos estudos prospectivos.

Para resumir, Keys com prestígio necessário e mais interesses de comitês políticos, conseguiu alterar totalmente as diretrizes nutricionais na época. A partir daquele momento, a gordura passou a ser veneno e a população passou a ser orientada a diminuir o consumo de gordura de maneira drástica.

Só depois de toda população, inclusive ocidental, ter alterado os hábitos alimentares, é deram início aos estudos para avaliar o impacto desta mudança ao longo dos anos.

O Grande Impacto

O resultado foi bem diferente do esperado. Antes de citarmos os estudos que comprovam isto, vamos observar o reflexo disto aqui no Brasil.

Segundo dados comparativos da Pesquisa de Orçamento Familiar feita pelo IBGE, o excesso de peso quase triplicou entre homens, de 18,5% em  pesquisa feita nos anos 1974-1975, para 50,1% em 2008-09 e nas mulheres, o aumento foi de 28,7% para 48%.

Já a obesidade cresceu mais de quatro vezes entre os homens, de 2,8% para 12,4%, e mais de duas vezes entre as mulheres, de 8% para 16,9%.

Agora, voltemos aos estudos.

O maior estudo realizado para comprovar o contrário da teoria de Keys foi Multiple Risk Of Intervension Trial. Este estudo, prospectivo e randomizado, testou a hipótese de a mudança vários fatores de risco diminuiriam o risco de morte. Um dos testes foi com a redução de consumo de gordura na alimentação.  (http://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/377969)

Este estudo, de 1972, recrutou 12866 homens considerados com alto risco de doença cardiovascular e os sorteou (randomizou) para dois grupos: um grupo controle e outro grupo com orientação para cessar o tabagismo, tratar hipertensão e adotar uma dieta para baixar os níveis de colesterol sanguíneo.

A orientação nutricional consistia em diminuir o consumo de gorduras saturadas para menos de 10% do consumo total diário de calorias, de colesterol para menos de 300g por dia e aumento de gorduras poli-insaturadas para mais de 10%. Após 7 anos de seguimento do estudo, constatou-se que não houve nenhuma diferença significativa na mortalidade entre os grupos.

Outro estudo, este de 2006 e realizado apenas com mulheres, avaliou mais de 48.800 mulheres, com objetivo de avaliar o efeito de uma dieta pobre em gorduras na saúde cardiovascular e incidência de câncer de mama. Após 8 anos de seguimento, este estudo também concluiu que não houve grande impacto em nenhum dos desfechos.  (http://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/202339)

E para estabelecer que a teoria do colesterol é um dos maiores mitos da Nutrição, eis 7 metanálises de ensaios clínicos randomizados, nível 1A de evidência científica, ou seja, maior nível de evidência existente.

São 7 análises sistemáticas que comprovam que consumo de gorduras saturadas e colesterol não são fatores de risco para doença cardiovascular, e que diminuir drasticamente o consumo deste nutriente é muito mais deletério do que benéfico.

Em um próximo artigo, falaremos mais sobre colesterol sanguíneo e outros assuntos relacionados a este tema.

 

Referências:

7 METANÁLISES:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20071648

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19752542

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24723079

http://www.bmj.com/content/346/bmj.e8707

http://www.bmj.com/content/353/bmj.i1246

http://openheart.bmj.com/content/2/1/e000196.full

http://www.bmj.com/content/351/bmj.h3978

 

Estudo dos 7 países Ancel Keys: http://coachmikeblogs.com/wp-content/uploads/2014/08/Keys_Atherosclerosis_A_Problem_in_Newer_Public_Health.pdf

Análise do Estudo dos 7 países: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10485342

Consequências cardio-metabólicas da substituição de gorduras por carboidratos na dieta: http://openheart.bmj.com/content/1/1/e000032.full

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