Exames Laboratoriais

Por muitas décadas o consumo de gordura na alimentação vem sendo desencorajado devido à sua equivocada relação com altos níveis de colesterol séricos e consequentemente risco de doenças cardiovasculares.

Em um dos artigos de nosso acervo, vimos o porquê desta diretriz nutricional ser tão questionável e toda a base científica que sustenta a não ligação entre consumo de gorduras com risco de infartos e derrames.

Vimos que o estudo que levantou esta hipótese e posteriormente afirmou-a fazendo com que isto se tornasse um dogma, foi uma pesquisa de baixo nível de evidência científica de acordo com parâmetros de metodologia da medicina baseada em evidências.

Foi constatado ainda que o estudo também foi manipulado de acordo com o interesse do pesquisador em confirmar sua teoria.

Mas, para não restar dúvidas, o objetivo deste artigo é mostrar como exames bioquímicos deveriam ser analisados de acordo com a atual diretriz.

Vale ressaltar que, exames bioquímicos não devem ser o único parâmetro para diagnósticos, uma vez que o exame clínico e histórico do paciente deve ser levado em consideração e são de grande importância para traçar a melhor estratégia nutricional ou melhor tratamento para o paciente em questão.

Com o diagnóstico estabelecido de maneira correta, podemos atender de forma individual em personalizada e podemos obter o melhor prognóstico para proporcionar qualidade de vida a essas pessoas.

Os exames bioquímicos são exames que analisam amostras sanguíneas, de fezes ou urina, prescristos por profissionais da saúde habilitados para tal atividade a fim de triar possíveis riscos, carências ou doenças do paciente.

Estes exames são colidos e analisados em laboratórios especializados.

Neste artigo direcionaremos o foco para um exame chamado perfil lipídico ou lipidograma.

Estes exames são capazes de dosar o colesterol total e as frações através de uma amostra sanguínea.

Conflito de Interesses

Antes de entendermos sobre estes exames, vamos começar falando sobre um assunto polêmico e delicado na ciência: o conflito de interesses. Algo que já é de conhecimento de muitos profissionais pesquisadores. Veremos que muitos estudos que determinaram os marcadores de colesterol total e suas frações, foram estudos financiados por grandes laboratórios de medicamentos usados para diminuição dos níveis séricos de colesterol.

Sabe-se que muitos dos estudos onde determinaram os valores de colesterol normais foram financiados por indústrias farmacêuticas.

Mais precisamente, 8 de 9 especialistas receberam honorários de laboratórios. (http://www.nhlbi.nih.gov/news/press-releases/2004/cholesterol-guidelines-strength-of-the-science-base-and-the-integrity-of-the-development-process)

Além disso, em 2007, pesquisadores realizaram um levantamento de 192 sobre estatinas (fármacos que diminuem o colesterol). Muitos destes, são nomes da lista acima. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1885451/

O resultado do estudou mostrou que as pesquisas teriam maior chance de serem favoráveis ao uso das estatinas quando estes fossem patrocinados pela indústria. Estudos patrocinados pela indústria farmacêutica tinham 20 vezes mais chances de indicar resultados positivos ao uso das estatinas do que os estudos patrocinados pelo governo.

Perfil Lipídico

Por anos este exame tem sido usado para avaliar risco de doenças cardíacas. De forma quase que cultural, temos a ideia de que LDL-c é o “colesterol ruim” e o HDL-c é o “colesterol bom”.

Por estas razões, baixar o colesterol LDL e o colesterol total tem sido objetivo primário na prevenção de risco cardiovascular. Assim, temos muitos profissionais receitando fármacos com intuito de baixar o LDL-c.

Muito prescrito por médicos, o lipidograma consiste nos seguintes parâmetros:

  • Colesterol Total
  • LDL
  •  HDL
  • Triglicérides
  • VLDL
  • Colesterol não-HDL

Este exame consiste em coletar uma amostra sanguínea do indivíduo e através desta amostra, qualificar e quantificar cada um dos parâmetros citados acima.

Basear-se apenas no colesterol total e no LDL-c é simplificar e reduzir de forma drásticas a complexidade que é triar um risco cardiovascular.

É importante entender que muitos outros fatores estão ligados a formação de placas de ateroma, por exemplo. (https://www.nhlbi.nih.gov/health/health-topics/topics/atherosclerosis/)

O colesterol é uma substância gordurosa, portanto não se mistura a água, por esta razão ele não consegue percorrer pela corrente sanguínea sozinho. Por isto, as moléculas de gordura são ligadas a lipoproteínas que funcionam como transportadoras que carregam diferentes tipos de gorduras como colesterol, triglicérides fosfolipídios. Esta lipoproteína interage com a parede da artéria e inicia, através de processos inflamatórios, a aterosclerose. Porém, colesterol é apenas um de muitos componentes destas lipoproteínas.

Por isso, o LDL o qual significa em português “Lipoproteína de Baixa Densidade”, não pode ser o único parâmetro para tal enfermidade. Pessoas com obesidade, síndrome metabólica e sedentarismo frequentemente apresentam triglicérides elevados, HDL baixo e LDL normalizados. Porém, estes indivíduos produzem lipoproteínas de muito baixa densidade (VLDL) e lipoproteínas de densidade intermediária (IDL). Estes dois últimos parâmetros, em especial o último (IDL) são pouco avaliados ou muitas vezes nem mesmo dosados em exames no Brasil.

Muitos estudos descobriram que a proporção de triglicérides/HDL (TG/HDL) está diretamente correlacionada a incidência e extensão de doenças cardíacas, sendo esta relação igualmente equivalente tanto para homens quanto mulheres. (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19892056 e https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19249427)

Outro estudo que comparou os valores de lipídios séricos em pacientes com doenças coronárias descobriu que a proporção TG/HDL quando acima de 4 era o mais poderoso marcador independente para doença arterial coronariana. Assim, concluiu-se ainda que TG alto e HDL baixo estão mais frequentemente associados a desordens como sobrepeso, obesidade e síndrome metabólica.

Relação Triglicérides/HDL

Veremos agora como calcular estas proporções e os marcadores, de acordo com Oxford.

Se os valores lipídicos estão expressos em mg/dL:

  • TG/HDL-C abaixo de 2 é ideal
  • TG/HDL-C acima de 4 é muito alto
  • TG/HDL-C acima de 6 pede cuidados

Se os valores estão expressos em mmol/L, você precisa multiplicar a proporção por 0.4366 para ter os valores de referência corretos:

  • TG/HDL-C abaixo de 0.97 é ideal
  • TG/HDL-C acima de 1.74 é muito alto
  • TG/HDL-C acima de 2.62 pede cuidados

Partículas de LDL

Recentemente, outro procedimento que vem se mostrado muito importante para triar risco cardiovascular é analisar o tamanho das partículas de LDL. Entretanto, trata-se de um procedimento oneroso e pouco disponível.

Estudos epidemiológicos prospectivos têm sugerido que números altos de partículas LDL pequenas e densas, estão associados com risco aumentado para doença coronariana. Indivíduos com partículas pequenas e densas (fenótipo B) estão em risco mais alto do que aqueles com partículas de LDL maiores, flutuantes (fenótipo A). (http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=408022)

Um estudo mostrou também que a relação TG/HDL pode predizer o tamanho das partículas de LDL. Este estudo mostrou que 79% dos indivíduos com proporção acima de 3.8 tinha uma preponderância de partículas LDL pequenas e densas, enquanto 81% deles com proporção abaixo de 3.8 tinha preponderância a partículas grandes e flutuantes. (http://www.ajconline.org/article/S0002-9149(04)00517-X/abstract)

Resistência à Insulina

 Resistência à insulina é a condição a qual as células falham em responder a ação normal da insulina. A maioria das pessoas que apresentam esta resistência têm níveis séricos de insulina altos. Esta condição tem papel importante na doença cardíaca e pode predizer a mortalidade. Indivíduos com obesidade abdominal e síndrome metabólica frequentemente apresentam esta condição. (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/8635260)

Um estudo onde reuniu participantes caucasianos e com sobrepeso em maioria, identificou uma proporção TG/HDL maior ou igual 3 como marcador confiável de resistência à insulina. (http://annals.org/aim/article/716922/use-metabolic-markers-identify-overweight-individuals-who-insulin-resistant)

Por outro lado, um estudo relativamente pequeno de 125 negros americanos, mostrou que nem o TG em jejum nem a proporção TG/HDL-C são marcadores de resistência à insulina. (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15983289)

É importante frisar que estes estudos são preliminares e servem para levantar hipóteses. Mas, apesar de estudos confirmatórios serem necessários, os dados sugerem que uma proporção TG/HDL-C elevada pode ser clinicamente útil para predizer a resistência à insulina.

Conclui-se, portanto que para avaliar completamente e triar riscos cardiovasculares de um indivíduo é preciso muito mais do que analisar parâmetros numéricos de exames laboratoriais. Uma avaliação completa e de qualidade se faz com a análise da qualidade destas partículas de gorduras.

O perfil lipídico é um importante exame e um interessante marcador de doenças quando analisado da forma correta.

Referências:

http://www.nhlbi.nih.gov/news/press-releases/2001/ncep-issues-major-new-cholesterol-guidelines

http://www.nhlbi.nih.gov/health-pro/guidelines/current/cholesterol-guidelines/quick-desk-reference-html/10-year-risk-framingham-table

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1885451/

https://www.nhlbi.nih.gov/health/health-topics/topics/atherosclerosis/

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19892056 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19249427

http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=408022)

http://www.ajconline.org/article/S0002-9149(04)00517-X/abstract

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/8635260

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/8635260

http://annals.org/aim/article/716922/use-metabolic-markers-identify-overweight-individuals-who-insulin-resistant

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15983289

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